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 | De Mineiro |
| porPrimo |
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“E aí cara, partimos para mais uma surf trip. Onde vai dar isso ?”
6ª feira, aulas só na 2ª feira. Daí, o Trolho estava à toa. O Gringo com o fusquinha, se lambuzando de maresia e ferrugem na garage. Claro, sair da city exige bater ponto no point da galera, no surf shops do Guru. Nem que seja para só ver o que rola e deixar os que ficam morrendo de curiosidade.
Lá estavam o Adilson, como um bambu encostado na porta da surf shop do Guru, proseando com feijão e Dino e o Guru, em posição de lótus, afundado na velha poltrona de veludo bordeaux, meditando.
No fusquinha, vermelho queimado de sol, fomos com um bodyboard, três sleepis uma tenda véia, para diminuir o chuveiro durante as noites chuvosas, na verdade uma lona velha grande já com alguns furos aqui e ali. Quatro pranchas enrriba do teto redondo do fusquinha. Uma panela e um fogareiro de duas bocas “da hora”, um bujãozinho de gás, roupas de borracha e a bolsa de cada um com o kit básico, bermuda, escova dentes, dois t-shirts, duas bermudas, um par de sandálias. Claro, o Gringo levava sempre algo mais, tipo, um par de tênis importado, escova de cabelo, sweat shirt, cinco t-shirts, calça comprida de marca “gringa”.... coisa de boíóla!
Nós três imaginávamos o conforto, socados dentro daquela lata, se a Abelhuda pudesse estar conosco. Seria de mais da conta! Talvez desse até para dormirmos dentro dela, com espaço e conforto.
E lá fomos nós, no fuquinha do Gringo se arrastando para o norte. Como diz o Gringo: “Along the coast”. Até chegar ao point, “inexplorado” entre aspas, porque, hoje em dia, “inexplorado”, talvez ondas de pororoca no meio da selva amazônica ou numa ilha perdida - se é que ainda existe isso.
E, depois de duas horas e meia, abrimos uma porteira e seguimos por vinte minutos uma trilha, em meio a um pasto coberto de vegetação rasteira e areia. Achava que seria difícil varar aquele areião. Mermão, não é que tinha umas vacas pastando ali ! Era a vegetação rasteira que ajudava o fuquinha a não atolar na areia. Mesmo assim, tivemos que sair do carro por duas vezes para aliviar o peso e evitar que o “Besouro” – apelido que Gringo deu ao seu meio de transporte poluente – ficasse pegado. Nessas horas, a força do Trolho é decisiva.
Chegando no spot, pescoço esticando para ver se estava quebrando algo por ali, ufa, cinco a sete pés quebrando num fundo de areia, com um terral suave, e o céu começando a pegar aquela cor avermelhada. Não deu cinco minutos e estávamos os três fazendo um surfe delicioso de fim de tarde. E ia escurecendo e sempre a saideira, mas com uma boca ajudando a voltar fácil e sem esforço para um dos picos. A noite chegou e lá estávamos montando a tenda no maior breu.
Matamos o rango (macarrão)preparado no fogãozinho e fomos logo mocosar, sonhando com a manhã seguinte. Mas antes, o show de Gringo escolhendo a camiseta para dormir. Muito fresco o cara. Pijama, ahh ele aprendeu que se usar, será motivo para ser encarnado por pelo menos dois meses por todos da galera.
Madrugada apontando, um sanduda e um suco prá dentro, o sol nem tinha dado as caras e nós já no pico. Não é que veio, lentamente, aquela pirâmide de água, o terral constante espirrando aquela espuminha no pico, parecia uma tarjeta de loja como o meu nome nela. Aquela era minha, só minha.
Virando a prancha, ela bem procurando flutuação e pulando para dentro da onda, uma remada com os dois braços e eu estava nela. Brou, parecia aquelas ondinhas de Waikiki, de ondulação entrando lenta e demoradamente. Ela não tinha nem virado e eu surfando a onda, inteiríssima, a esquerdinha se formando sem quebrar. Caráca, o swell entrando de lado na costa e previ que ia ter que ter pernas para uma longa onda.
. E o goofy com o pé esquerdo preso na cordinha. Mermão, ei de pé trocado e lá mais a frente, Brolho e Gringo voltando para o point com os olhões arregalados em cima da cena do meu reto. A parede formando e consegui livrar-me da cordinha e troquei de pé. De front side me encaixei na parede, atrasadão e..e..e.. a onda descascando o lip há pelo menos um metro na minha frente. A mão esquerda alisando a parede cristal acrílica e a direita engripada quase no bico da prancha. O silêncio foi a trilha sonora percebida por sei lá quanto tempo. Eu só tinha vivido isso agarrado a uma pedra debaixo de uma cachoeira.
Trolho batizou o meu tubo de “o mineiro”, num trocadilho com maneiro. Entendi o que Guru dizia sobre a felicidade de o encontro com o presente na conjunção dos astros e que o Gênio insiste em dizer que foi o cara certo no ponto certo no momento exato.
Na verdade, eu nunca tinha e, se bobear, nunca pegarei um tubo tão longo como esse na vida. Em fundo de areia, é porque a tarjeta no pico da onda estava endereçada para o cara certo.
O maral entrou cedo e resolvemos voltar e dividir a trip, no final da tarde, na surf shop da galera.
Primo |
| 4/2/2010 |
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